terça-feira, 16 de setembro de 2025

Lista de desejos

Desculpe. Não queria. Mas, preciso falar de uma lista de desejos.
Eu queria que tivesse aceitado boa parte dos meus convites...
Queria ter ido ao cinema na sua companhia
Assistido aqueles shows que lhe falei
Queria ter podido ouvir sim, mesmo que em nenhum desses lugares houvesse qualquer demonstração de afeto.
Eu queria ter viajado com você pra lugares interessantes
Queria que tivesse aceitado sair num domingo de manhã pra tomar café no interior
Queria poder te seguir nas redes sociais e ser seguido por você sem maiores receios
Queria um registro, uma fotografia, algo espontâneo, mas, sem a maluquice que detona a privacidade das pessoas quando tanto se expõem postando.
Queria confiar em você como quem acredita e faz planos.
Grandes planos! De sonhos, de projetos, família, filhos...
Ah! como eu queria!
Queria que me beijasse como quem me deseja e não como quem faz um favor...
Queria que tivesse feito aquele carinho pelo menos por mais de três minutos, quando acordamos num quarto compartilhado e você dormiu na cama, enquanto eu estava no colchão no chão...
Aliás, mendigando atenção e sem chão!
Um abismo. Porque vou ao seu encontro e volto vazio, mais carente do que estava antes e com um turbilhão de ideias na cabeça...
É difícil ouvir não. Pior ainda é dizer. Mas, tudo bem: o mundo tem 10 bilhões de pessoas e eu cá me resolvo, como já me dei bem outras tantas vezes em que eu queria ter feito com você tudo o que fiz com os outros...
Queria trocar suas paredes por horizontes.
Eu queria ter mais sorte.
Daquelas que pudessem substituir meu dedo podre por mãos de Midas.
Queria que tudo que eu tocasse virasse ouro valiosíssimo, tão precioso que se comparasse a todo tempo e expectativa que criei sobre você, ou sobre nós dois...
Eu queria um texto mais leve! um olhar contemplativo. Um coração inteiro bem confortável pra acomodar toda a solidão que já senti no mundo.
Eu queria que percebesse a importância indispensável de se construir algo assim:
Um Palácio dos bons sentimentos e de uma história bonita.
Eu queria... Bem conjugado! Porque essa vontade jamais se concretiza por um só e não se realiza quando não houver reciprocidade.
E, enfim, um último desejo tão tangível e simples de ser conquistado como todos os outros que já descrevi.
Do fundo do meu coração: eu queria que você jamais percorresse esse meu caminho sofrido de uma vida que poderia ter sido e que não foi.




segunda-feira, 28 de julho de 2025

Endereço incerto ou não sabido

Não sei.
Provavelmente, você também não.
Que lugar é esse onde o amor acontece?
Um paraíso perdido, jardim do Éden?
Um palácio vislumbrante?
Versalhes? Taj Mahal?
Ou não existirá de certo um monumento
Sim. Talvez. Não. 
Do movimento de brasis esquecidos,
Nos rincões distantes, nesse universo inteiro chamado sertão. 
Meio de Goiás, sul do Maranhão...
Paisagem hostil... tempo desértico, seco... penhasco de pedras, veredas...
Tão perto, que é longe, no coração
Ou onde a gente pensa
e, vazio da razão, aqui, exatamente aqui nesse lugar em que a gente sente
E assenta os versinhos bobos, ouvindo gostando até das baladas bregas
que justificam essa inocência besta desse mesmo cantinho
onde o amor acontece...
 Saara
onde se passa o sofrimento
E se encontra o nada.
Mas, também de onde se avista a miragem
Paixão sedenta, ilusão presente.
Aqui que se vacila, trai, perdoa, passa por cima
Segue em frente
Onde o amor acontece, espaço disforme, entorpecente
Ninguém sabe onde começa, se ameia ou termina...
Nem revela aonde nos leva
Se aos céus ou à ruína.
Quererei, como já quis, e hoje, mais quero ainda
Saber se em você também cresce
Esse lugar desconhecido
Oculto e lindo
Onde o amor acontece
desnudo, se abrindo.



sexta-feira, 25 de julho de 2025

Machu Picchu

Talvez, em busca de um lugar ao sol.
Como a fluidez da água que corre, decidi subir a montanha íngrime da vida.
Jamais com a enfática certeza dos que sabem quem são, onde estão e o que querem.
A escalada íngrime da vida sempre me colocou no movediço solo da dúvida.
Ao chegar naquela cidade, me deparei com os seus muros que nunca a protegeram.
E me perguntei quantos homens podem ter até mesmo morrido removendo tantas pedras que edificaram a fortaleza fadada às ruinas.
Removendo pedras, invasores agrediram, destruíram pessoas, culturas e recolocaram as mesmas pedras em novos velhos edifícios.
A história do homem também se move, como a água, como eu que vou subindo a montanha.
E o que é mesmo a montanha?
Um ecossistema? Uma casa? Uma paisagem nababesca? Uma deusa?
E uma vez que assim ela fosse, a qual dos mundos pertenceria?
Ao mundo do condor que a sobrevoa longe?
Do puma que a desafia?
Ou da sepente que nela rasteja?
Espíritos, vivos e mortos
A montanha os transcende todos.
Toca o céu como quem dele tivesse descido
E parado nas profundezas dos rios, ocultando tanta riqueza, em suas árvores e minérios.
Eis que o homem outrora oprimido a avistou,
A cultuou,
Nela permaneceu e se sentiu seguro.
Haveria de fazer a partir dela uma outra cidade que, de tão bem pensada e desenvolvida
Se esconderia no tempo
Como se fosse perdida.
Nem mesmo aqueles saqueadores, ladrões, que dizimaram os povos
Nem eles poderiam saber da cidade perdida da montanha.
De tão protegida, a montanha guardou essa outra e bela cidade para si.
E cobriu seus muros, suas ruínas com folhas, árvores, mato, clorofila.
Na cidade perdida dos inkas, reenergizei-me para seguir o caminho
Das perguntas, da subida, do encantamento
que é amar e viver.
E sigo subindo na proporção em que devo descer, baixar até às catacumbas da terra
Para, novamente, regressar a subir.
É o ciclo que se impõe:
Na escalada da montanha da vida
No paraíso, a pérola andina.

Águas Calientes, 13 de junho de 2024.




quarta-feira, 23 de julho de 2025

Jardim de Maytrea

Estar perto de um colapso
Tão distante de mim
que - a bem da verdade - quem sou eu há muito já não importa mais.
Essas expressões batidas, também tão minhas
Me deixam empanturrado do meu eu que não aguento mais
A bem da verdade?
Que bem? Existirá a verdade?
Aliás, o que é bem?
Um patrimônio chamado verdade?
Quem se apropriou dele? Qual o seu registro, número de matrícula ou escritura?
Rasguei todos os títulos.
Ter é definitivamente desnecessário
quando não se tem nem o juízo do que é ter a si mesmo.
Me pego fazendo coisas sem sentido
e paro o tempo como se dele eu dispusesse.
É ele, o tempo, que dispõe de mim.
Meus dentes manchados, cabelos esbranquiçados,
o cansaço do meu corpo largado.
Deixado por um sem querer infeliz.
Todos aqueles comprimidos que deveriam guardar em si o ânimo de viver.
Mas, pra quê?
Visto minhas ideologias, como quem estende e troca as roupas no varal.
Viver nesta vida para a eternidade que se starta no depois dela, além-vida.
Viver nesta vida para exaurir, consumir, esgotar e, compulsivo, preencher uma falta emocional interminável.
Viver nesta vida para nela voltar, tantas vezes quanto necessário, para remoçar, reviver, repassar...
Viver pra quê?
Menos significativo do que a vida, só pode mesmo ser o nada que é a própria morte.
Eu estou me esquecendo.
Não é fácil.
Mas, é um morrer em vida.
Seria nirvana, como aquele buda que, meditando, esqueceu-se de si mesmo, do mundo, do cosmos e foi mumificado
meditando...
Medito como quem se esforça para esquecer-se de si.
De onde vim
Para onde vou
Quanto custou o suor do labor
Qual idioma falo, disse,
Nacionalidade
História
Guerras
Política.
Tudo isso que está tão arraigado
indissociável de mim.
Eu me desapego
Rompo as fronteiras
Decolo
São milênios, são as tradições
é Cartésio, logaritmos, cartografia, romances
poesias não matemáticas.
Liguagem de navegação.
Vento de proa
Velocidade de cruzeiro
É o desgosto do amargor de me reencontrar e me remover em mim.
E me vi no outro.
O insuportável que suportei.
Superei.
Contraí.
Adquiri.
Admirei.
Idolatrei.
Era amor por que era eu?
Egóico.
Prepotente.
Centralizador.
Deus?
minha imagem e minha semelhança.
eu?
eu que não amou.
eu que se esqueceu de mim.



terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Contrato

É vedado comportamentos abusivos.
Precisa-se dizer a verdade, mesmo quando ela incomode.
Dispensa-se a aceitação pública, ao passo de que, é obrigatório assumir e apresentar-se socialmente como alguém digno e que ama.
Vale bons investimentos: de esforço, dedicação e cuidado um para com o outro.
Ideias de equilíbrio, paz e vitalidade.
Muito carinho do dormir ao acordar,
do perguntar o que sente, se está bem ao simples e silente abraço que envolve e compreende.
Fica proibido exigir o que não se pode dar e a regra expressa é a da reciprocidade.
 Sonhar é devido e, neste trato, o é conjuntamente.
Realizar-se é cláusula irretratável, não admitido qualquer aditamento.
 Liberdade, disciplina, amor próprio, foco e abnegação é praxe entre as partes.
 Qualquer demanda ou obscuridade sobre o pactuado deve ser arbitrada por comum entendimento, sob pena de rescisão imediata.
E por estarem assim justos, contratados, em amor e poesia, homologam o presente termo em seus atos diários.
 Para que, na melhor forma de direito, produza efeitos de intensa e eterna cordialidade.
Perfazendo-se na terra, o céu, com o mais sincero comprometimento.
Este contrato vincula somente as partes que o subscrevem, elegendo um regime de comunhão de sentimentos e separação de bens.
 Por ser firme e valioso, dado e passado em suas mentes, não o guardam, senão somente o praticam. Amém.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Mais Feliz

Eu nem sei se posso chamá-lo mais de meu amor
Se pra você os bons momentos sequer ficaram na memória.
Não cabe avaliar se valeu a pena.
Tudo foi entregue.
Mais não poderia fazer este que o venerou.
Vãs foram as canções, as palavras nas poesias e nas crônicas mais bem redigidas
Nada disso tem valor.
Quando a fragilidade me tornou vulnerável
No momento em que mais precisei de uma mão amiga, uma companhia um carinho ameno que pudesse retirar o peso da trágica realidade das costas
Me sobraram as suas costas. O seu desprezo. Sua fatal incapacidade de ir além
Sua devassidão. Seus hormônios e desinteresse incontroláveis.
Vá logo embora porque o mundo está cheio de gente babaca.
E longe, bem longe, somente nos livros de literatura eu quero que fiquem os registros de um Bovary.
Não quero me solidarizar ao seu sofrimento. Nem comemorar suas remotas vitórias
Tampouco gostaria de participar da sua incansável luta pelo alcance ao padrão estético
da sua mais perfeita e comovente imagem.
Estou farto dos rostos e corpos bonitos engendrados em caráteres duvidosos.
Sai com seus olhos de ressaca. Sai de mim como uma ressaca. Única.
Daquelas que passam uma só vez pra nunca mais voltar.

Dos significados de amar

A criatividade semântica é a maior riqueza da humanidade. O que existe de mais precioso em nós é essa nossa capacidade de criar símbolos, significados, ícones emblemáticos, de acordo com cada processo histórico da vida...

Dos grandes estadistas aos prefeitos das cidades no interior, há sempre um monumento, um edifício, uma estátua, um busto, uma placa, algo que traz algum sentido ou algum conceito pra determinado acontecimento.

E não apenas do ponto de vista da vida social, política e da coletividade, mas, individual e afetivamente, cuidamos de repetir gestos e cultivar significados... A festa dos 15 anos de uma garota e o anel com brilhantes de debutante; O rubi usado pelo advogado recém formado; A aliança de prata na mão direita que retrata um namoro sério; ou o anel de ouro: se na mão direita de noivado, se na esquerda, um casamento; o preto luto, cor que veste quem perde alguém importante.

Era tarde de chuva e, mediante certa cobrança e oportuna ocasião, resolvi buscar algo que simbolizasse o meu amor. Quis fugir do tradicional. Longe da “retórica dos namorados”. Estamos nos conhecendo e lá se vai um único mês de pleno encantamento. Uma aliança prateada seria clichê o bastante pra depor contra o meu tenebroso hábito de criticar a tudo. Além do mais, a escassez do tempo não me assegura a longevidade. Dói dizer, mas, o amor humano, hoje, tem curto prazo de validade.

Por fim, coloquei em duas pulseiras de prata dois diferentes pingentes: numa delas uma chave. Noutra, um coração. Quem há de usar o que? Logo me indaguei. Eu uso o coração porque sou mais velho, muito mais sentimental, me equiparo a um cais de porto, socorro bem presente e refúgio seguro. O meu amor fica com a chave. Porque é um barco viajante, às vezes ancorado à deriva, às vezes longe, a perder de vista. O importante é que a chave do meu amor possa abrir o meu coração sempre quando lhe aprouver.