segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Dos significados de amar

A criatividade semântica é a maior riqueza da humanidade. O que existe de mais precioso em nós é essa nossa capacidade de criar símbolos, significados, ícones emblemáticos, de acordo com cada processo histórico da vida...

Dos grandes estadistas aos prefeitos das cidades no interior, há sempre um monumento, um edifício, uma estátua, um busto, uma placa, algo que traz algum sentido ou algum conceito pra determinado acontecimento.

E não apenas do ponto de vista da vida social, política e da coletividade, mas, individual e afetivamente, cuidamos de repetir gestos e cultivar significados... A festa dos 15 anos de uma garota e o anel com brilhantes de debutante; O rubi usado pelo advogado recém formado; A aliança de prata na mão direita que retrata um namoro sério; ou o anel de ouro: se na mão direita de noivado, se na esquerda, um casamento; o preto luto, cor que veste quem perde alguém importante.

Era tarde de chuva e, mediante certa cobrança e oportuna ocasião, resolvi buscar algo que simbolizasse o meu amor. Quis fugir do tradicional. Longe da “retórica dos namorados”. Estamos nos conhecendo e lá se vai um único mês de pleno encantamento. Uma aliança prateada seria clichê o bastante pra depor contra o meu tenebroso hábito de criticar a tudo. Além do mais, a escassez do tempo não me assegura a longevidade. Dói dizer, mas, o amor humano, hoje, tem curto prazo de validade.

Por fim, coloquei em duas pulseiras de prata dois diferentes pingentes: numa delas uma chave. Noutra, um coração. Quem há de usar o que? Logo me indaguei. Eu uso o coração porque sou mais velho, muito mais sentimental, me equiparo a um cais de porto, socorro bem presente e refúgio seguro. O meu amor fica com a chave. Porque é um barco viajante, às vezes ancorado à deriva, às vezes longe, a perder de vista. O importante é que a chave do meu amor possa abrir o meu coração sempre quando lhe aprouver.