sexta-feira, 25 de julho de 2025

Machu Picchu

Talvez, em busca de um lugar ao sol.
Como a fluidez da água que corre, decidi subir a montanha íngrime da vida.
Jamais com a enfática certeza dos que sabem quem são, onde estão e o que querem.
A escalada íngrime da vida sempre me colocou no movediço solo da dúvida.
Ao chegar naquela cidade, me deparei com os seus muros que nunca a protegeram.
E me perguntei quantos homens podem ter até mesmo morrido removendo tantas pedras que edificaram a fortaleza fadada às ruinas.
Removendo pedras, invasores agrediram, destruíram pessoas, culturas e recolocaram as mesmas pedras em novos velhos edifícios.
A história do homem também se move, como a água, como eu que vou subindo a montanha.
E o que é mesmo a montanha?
Um ecossistema? Uma casa? Uma paisagem nababesca? Uma deusa?
E uma vez que assim ela fosse, a qual dos mundos pertenceria?
Ao mundo do condor que a sobrevoa longe?
Do puma que a desafia?
Ou da sepente que nela rasteja?
Espíritos, vivos e mortos
A montanha os transcende todos.
Toca o céu como quem dele tivesse descido
E parado nas profundezas dos rios, ocultando tanta riqueza, em suas árvores e minérios.
Eis que o homem outrora oprimido a avistou,
A cultuou,
Nela permaneceu e se sentiu seguro.
Haveria de fazer a partir dela uma outra cidade que, de tão bem pensada e desenvolvida
Se esconderia no tempo
Como se fosse perdida.
Nem mesmo aqueles saqueadores, ladrões, que dizimaram os povos
Nem eles poderiam saber da cidade perdida da montanha.
De tão protegida, a montanha guardou essa outra e bela cidade para si.
E cobriu seus muros, suas ruínas com folhas, árvores, mato, clorofila.
Na cidade perdida dos inkas, reenergizei-me para seguir o caminho
Das perguntas, da subida, do encantamento
que é amar e viver.
E sigo subindo na proporção em que devo descer, baixar até às catacumbas da terra
Para, novamente, regressar a subir.
É o ciclo que se impõe:
Na escalada da montanha da vida
No paraíso, a pérola andina.

Águas Calientes, 13 de junho de 2024.