quarta-feira, 23 de julho de 2025

Jardim de Maytrea

Estar perto de um colapso
Tão distante de mim
que - a bem da verdade - quem sou eu há muito já não importa mais.
Essas expressões batidas, também tão minhas
Me deixam empanturrado do meu eu que não aguento mais
A bem da verdade?
Que bem? Existirá a verdade?
Aliás, o que é bem?
Um patrimônio chamado verdade?
Quem se apropriou dele? Qual o seu registro, número de matrícula ou escritura?
Rasguei todos os títulos.
Ter é definitivamente desnecessário
quando não se tem nem o juízo do que é ter a si mesmo.
Me pego fazendo coisas sem sentido
e paro o tempo como se dele eu dispusesse.
É ele, o tempo, que dispõe de mim.
Meus dentes manchados, cabelos esbranquiçados,
o cansaço do meu corpo largado.
Deixado por um sem querer infeliz.
Todos aqueles comprimidos que deveriam guardar em si o ânimo de viver.
Mas, pra quê?
Visto minhas ideologias, como quem estende e troca as roupas no varal.
Viver nesta vida para a eternidade que se starta no depois dela, além-vida.
Viver nesta vida para exaurir, consumir, esgotar e, compulsivo, preencher uma falta emocional interminável.
Viver nesta vida para nela voltar, tantas vezes quanto necessário, para remoçar, reviver, repassar...
Viver pra quê?
Menos significativo do que a vida, só pode mesmo ser o nada que é a própria morte.
Eu estou me esquecendo.
Não é fácil.
Mas, é um morrer em vida.
Seria nirvana, como aquele buda que, meditando, esqueceu-se de si mesmo, do mundo, do cosmos e foi mumificado
meditando...
Medito como quem se esforça para esquecer-se de si.
De onde vim
Para onde vou
Quanto custou o suor do labor
Qual idioma falo, disse,
Nacionalidade
História
Guerras
Política.
Tudo isso que está tão arraigado
indissociável de mim.
Eu me desapego
Rompo as fronteiras
Decolo
São milênios, são as tradições
é Cartésio, logaritmos, cartografia, romances
poesias não matemáticas.
Liguagem de navegação.
Vento de proa
Velocidade de cruzeiro
É o desgosto do amargor de me reencontrar e me remover em mim.
E me vi no outro.
O insuportável que suportei.
Superei.
Contraí.
Adquiri.
Admirei.
Idolatrei.
Era amor por que era eu?
Egóico.
Prepotente.
Centralizador.
Deus?
minha imagem e minha semelhança.
eu?
eu que não amou.
eu que se esqueceu de mim.