O mundo está impressionado com as reações populares dos países árabes. Alguns justificariam tais revoluções – que, evidentemente, alteram toda a lógica política e estrutural de estados até então totalitários – com alguns motivos inescapáveis: a crise econômica de 2008 que desestabilizou as finanças da população e intensificou a miséria nestes países; as novas ferramentas da tecnologia (a internet, pelo alcance das redes sociais) e a consequente disseminação das informações que fomenta o intercâmbio de culturas, rompendo enormes barreiras... tudo isto incentivou uma nova ordem demandada pelo povo do Oriente.
Após a libertação do Egito que rejeitou cerca de 20 anos sob o julgo de Mubarack, nesta última semana, direcionamos nossos olhos ao Conselho de Segurança da ONU que tomou algumas medidas radicais contra o maior dos sectários, Muammar Al Kadhafi, chefe de Estado da Líbia. Acusado de reagir despoticamente, como de praxe, o presidente líbio teve complicações com o resto do mundo por mandar as forças armadas subordinadas ao seu alvedrio combaterem os protestos políticos, atirando contra os reacionários. Um tom das várias cores da inadmissível tirania que detém os libaneses há tanto tempo.
É indubitável que Kadhafi sente o reflexo e o peso das tantas críticas que teceu ao regime democrático e aos Estados que promovem tais formas de organização de poder como os EUA. Forte na OPEP e inspirador de desafetos históricos entre árabes e judeus, sobretudo com as tensas negociações na OTAN, não fosse o bastante, em sua obra “O livro verde”, o presidente líbio assevera que a democracia é mistificação, pois se trataria meramente de uma ditadura da maioria. Indene de questionamentos, nós ocidentais (consensualmente) admitimos que por pior que seja, a democracia é, paradoxalmente, a melhor forma de governo. Porém, a nossa percepção das relações humanas, nossa maneira peculiar de compreender a vida, o direito e suas implicações, não nos outorga a arrogância de atravessar a soberania de outros países cosmo e axiologicamente diferentes, haja vista toda a carga cultural e histórica adversa.
Curiosamente, Obama pediu ao Conselho de Segurança da ONU autorização para bloquear o espaço aéreo da Líbia. Mais uma vez, como em 2003, a polícia do mundo (EUA), quer interferir na vida política alheia. Nesta toada, ante a um país que enfrenta sérias dificuldades financeiras e foi duramente criticado por sua posição dúbia quanto ao Egito, nos perguntamos: por que é que os EUA têm interesse em monitorar o espaço aéreo de um país, sem ser nem mesmo solicitado para tal operação? Querem pagar o preço da democracia? Contra Mubarack, esse valor era mais alto ou a diplomacia EUA-Egito era/é mais delicada? Para Caetano: “Americanos são muito estatísticos, tem gestos nítidos, sorrisos límpidos, olhos de brilho penetrante que vão fundo no que olham. Mas não no próprio fundo... Os americanos representam grande parte da alegria existente neste mundo!”. Quando da invasão ao país de Saddam Husseim, os EUA alegavam a existência de armas nucleares como uma ameaça ao planeta; bem sabíamos que os barris de petróleo e o esgotamento do estoque das tecnologias bélicas eram o que endossavam os ataques ao Iraque. E agora? O que de fato toca o sentimento de liberdade e solidariedade democrática dos lídimos americanos?
Pontualmente, escancarar o óbvio invocando Marx que denuncia o imperialismo e as formas de exploração seria mesmo pedante. O leitor pode ter dificuldades de digerir a crítica, taxando esta de esquerdista imponderada por estar, num outro giro hipotético, fazendo uma defesa tácita do incabível regime das amarras da opressão das ditaduras. Mas indigesto mesmo é não aceitar que a recente derrota do partido e do governo de Obama nas eleições para o parlamento americano é que está difícil de engolir em Washington. Eis a prova cabal de que os entusiastas da democracia mundial exigiriam uma nova postura de seu presidente. Atento a isso e sedento por mais quatro anos no palácio, Obama reafirma o velho discurso republicano que tanto combateu quando Bush invadia o Afeganistão, Iraque em condições congêneres na desculpa da luta contra o terror. À beira de uma eleição que pode levantar muitas interrogações nos colégios eleitorais anglicanos, Obama precisa se valer do perfil de valente, combativo e proativo para atingir o sentimento americano de supremacia potencialmente intergaláctica e contornar deslizes clarividentes de seu mandato.
Jamais é algo semelhante à postura que a White House teve nos 20 anos de forte apoio ao militarismo no Brasil (1964-1985) e em outros países nos quais convinha/convém financiar a truculência. Outrossim, é, no mínimo, doído consentir que essa pseudo-liberdade dada à catarse coletiva no Egito e que chegará a outros países, cairá – não muito mais tarde – na dura e eterna ressaca das mazelas da exclusão, do culto ao dinheiro, do total comprometimento à qualidade de vida quase que intangível ao frenético american way of life.