sábado, 15 de janeiro de 2011

Arquipélago

Cada vez mais
cada um por si
Sozinho,
com meus próprios dedos,
converso com quem nunca vi
senti, percebi
e virtualmente,
tenho amigos por ai...
Vivo, ganho dinheiro,
Me virando por mim mesmo
solitário,
cá com os meus lençois e travesseiros.
Hoje é tudo tão fácil
Nada aos seus pés,
Tudo em suas mãos!
Simples e acessível como um "I touch",
confortável, longínquo e depressivo
"And that’s enough."
Vamos excluir até mesmo das gramáticas
E proibir terminantemente o uso
da primeira pessoa do plural.
Veja bem:
admita sem maiores problemáticas
que este é o perfeito e difuso,
personalíssimo e individual
mundo em que nos encontramos também
Perdidos,
isolados
no século da solidão.
Deus, oh Deus dos desgraçados,
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se é mentira, se é verdade
Tanto horror perante os céus.
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se morrerei cercado
Pelos espelhos tão encharcados
De múltiplas imagens de mim mesmo
E se até lá, me servirei de uma nova
e mais avançada tecnologia
Que, com as maiores benesses
e facilidades, automática já providenciaria
a cerimônia fúnebre, o sepultamento
e a lápide com a fotografia.
Dizei-me vós, Senhor Deus,
em poucos e breves segundos
que não é vosso, e nem nosso...
é meu, o meu mundo.
E assim navego,
nos porões dos chats das redes sociais
que marca os aniversários
os recados, e as histórias das pessoas
tão artificiais!
Os agrupamentos, as comunidades
as questões tão banais.
Não há dissenso
E se me contendo
é simples: bloqueio e nunca mais!
Mataram minhas perspectivas
digitalizaram minha vida
que tão pacata e inequívoca
vai se passando
independente, cínica.
Sem virtudes,
sem segredos
só ilude
faz desejos
tão intempestivos
que comprometem a razão.
ego vivo repleto de adjetivação
Vidas vazias, luzes sombrias
que se apagarão.