Eva Monteiro Eloi,
Nada mais oportuno do que um
presente nesta data que representa o princípio da nossa relação, muito mais
ampla do que vínculos familiares, afetivos ou de parentesco. No dia nacional da
vovó, evidentemente, não poderia deixar de marcar o meu ponto, reacionando esse
espaço em comum que intersecciona o meu e o seu coração.
Você, ao bem da verdade,
nunca foi minha avó. Porque sempre significou muito mais do que isso. Você é
uma história de superação constante, um coração enorme e solícito, abdicado, abnegado
e entregue efetivamente ao amor primeiro – segundo o Cristo, o maior dos
mandamentos – aquele que compartilhamos com o próximo.
Eu me sinto grato e
privilegiado enormemente por ter essa proximidade tão confortável e saudável
com a minha antepassada, que sequer morreu, mas, pra mim, sempre foi um mito,
uma lenda. E por falar em mitos, lendas e enigmas, nada é mais oculto do que a
força que existe no coração do homem...
Baseando-se nessa força,
povos orientais, especificamente, os japoneses, sempre tiveram bastante
dificuldades para vencer as catástrofes que acontecem naquela região:
terremotos, maremotos, vendavais etc. Pensando em não perder a agricultura, a
horticultura e, sobretudo, evitando a fome, para conservar suas plantações
nativas, japoneses criaram os chamados bonsais.
Delicadinhos, pequenos,
porém, muito significativos, belos tais como a biografia da minha avó, os
bonsais advieram de técnicas de cultivo que preservam ainda hoje a vida
japonesa (porque plantas – que você adora – são alimento, e você que tão bem
cozinha e entende a respeito, bem sabe que tudo isso é muito vital). Não tinha
como guardar os frutos ou as sementes durante os períodos de cataclismo no
Japão. Facilmente as sementes poderiam não brotar, os frutos apodreceriam e,
tão logo, a vida japonesa estaria comprometida com a fome pela deterioração da
agricultura.
Desenvolvido, o mecanismo dos
bonsais (as pequenas plantas que não são meras mudas) começou a ser praticado e
passou a salvar o verde nativo do oriente.
Talvez você não soubesse
dessa (mais uma de tantas historinhas que seu neto insiste em descobrir e
contar pra você), mas, na sua vida, é fácil perceber que você praticou sempre a
técnica dos bonsais. Não consigo imaginar, vovó, como uma mulher pobre e sem
cultura conseguiu se informar, se formar, enfrentar a vida, um esposo
truculento, um divórcio na remota década conservadora e tenebrosa de 70, a
alfabetização tardia, duas graduações e três especializações, cirurgias
cardíacas, um câncer, a morte de um filho.
Só mesmo alguém que cultiva
bonsais de determinação, de amor, de fé, de carinho pode superar a todas as
catástrofes que dia após dia nos surpreende. É certo que você guarda pequenas
plantinhas que, passadas as turbulências, os furacões, tornam-se frondosas
árvores sustentadoras do todo edificado no seu carisma, na sua companhia
maravilhosa que ainda nos brinda com sorrisos tão abertos e gentis.
E mais uma vez com gratidão,
profundo acato e respeito me dirijo humildemente a você com esse gesto devoto de
admiração e de reconhecimento verdadeiro pela pessoa de nome forte, Eva, que
não é apenas a gênese da humanidade amplamente discutida pelas religiões. Mas,
é sim o início da minha própria humanidade. Só espero que, tal como você, eu
aprenda a cultivar bonsais pela vida e possa, também, superar quaisquer das
adversidades.
SEM AÇÚCAR. Com afeto: