sexta-feira, 25 de julho de 2014

Sobre o meu dia da vovó

Eva Monteiro Eloi,


                   Nada mais oportuno do que um presente nesta data que representa o princípio da nossa relação, muito mais ampla do que vínculos familiares, afetivos ou de parentesco. No dia nacional da vovó, evidentemente, não poderia deixar de marcar o meu ponto, reacionando esse espaço em comum que intersecciona o meu e o seu coração.

                   Você, ao bem da verdade, nunca foi minha avó. Porque sempre significou muito mais do que isso. Você é uma história de superação constante, um coração enorme e solícito, abdicado, abnegado e entregue efetivamente ao amor primeiro – segundo o Cristo, o maior dos mandamentos – aquele que compartilhamos com o próximo.

                   Eu me sinto grato e privilegiado enormemente por ter essa proximidade tão confortável e saudável com a minha antepassada, que sequer morreu, mas, pra mim, sempre foi um mito, uma lenda. E por falar em mitos, lendas e enigmas, nada é mais oculto do que a força que existe no coração do homem...

                   Baseando-se nessa força, povos orientais, especificamente, os japoneses, sempre tiveram bastante dificuldades para vencer as catástrofes que acontecem naquela região: terremotos, maremotos, vendavais etc. Pensando em não perder a agricultura, a horticultura e, sobretudo, evitando a fome, para conservar suas plantações nativas, japoneses criaram os chamados bonsais.

                   Delicadinhos, pequenos, porém, muito significativos, belos tais como a biografia da minha avó, os bonsais advieram de técnicas de cultivo que preservam ainda hoje a vida japonesa (porque plantas – que você adora – são alimento, e você que tão bem cozinha e entende a respeito, bem sabe que tudo isso é muito vital). Não tinha como guardar os frutos ou as sementes durante os períodos de cataclismo no Japão. Facilmente as sementes poderiam não brotar, os frutos apodreceriam e, tão logo, a vida japonesa estaria comprometida com a fome pela deterioração da agricultura.

                   Desenvolvido, o mecanismo dos bonsais (as pequenas plantas que não são meras mudas) começou a ser praticado e passou a salvar o verde nativo do oriente.

                   Talvez você não soubesse dessa (mais uma de tantas historinhas que seu neto insiste em descobrir e contar pra você), mas, na sua vida, é fácil perceber que você praticou sempre a técnica dos bonsais. Não consigo imaginar, vovó, como uma mulher pobre e sem cultura conseguiu se informar, se formar, enfrentar a vida, um esposo truculento, um divórcio na remota década conservadora e tenebrosa de 70, a alfabetização tardia, duas graduações e três especializações, cirurgias cardíacas, um câncer, a morte de um filho.

                   Só mesmo alguém que cultiva bonsais de determinação, de amor, de fé, de carinho pode superar a todas as catástrofes que dia após dia nos surpreende. É certo que você guarda pequenas plantinhas que, passadas as turbulências, os furacões, tornam-se frondosas árvores sustentadoras do todo edificado no seu carisma, na sua companhia maravilhosa que ainda nos brinda com sorrisos tão abertos e gentis.

                   E mais uma vez com gratidão, profundo acato e respeito me dirijo humildemente a você com esse gesto devoto de admiração e de reconhecimento verdadeiro pela pessoa de nome forte, Eva, que não é apenas a gênese da humanidade amplamente discutida pelas religiões. Mas, é sim o início da minha própria humanidade. Só espero que, tal como você, eu aprenda a cultivar bonsais pela vida e possa, também, superar quaisquer das adversidades.

                   SEM AÇÚCAR. Com afeto: