Um forte e comovente enredo de cinema? Uma mera propaganda eleitoral? Um registro histórico? Uma biografia altamente admirável e, fatidicamente, chocante? O que torna o filme que conta a vida do então presidente da República algo tão provocante?
Críticas advindas de determinados grupos políticos brasileiros são, evidentemente, evasivas. No final das contas, não há melhor história de superação, de quebra das barreiras sociais estruturantes e dogmáticas, de vitória, de luta e dificuldades do que a biografia de Lula.
Talvez, ser filho de uma elite que condiciona o próprio rebento a oportunidades invejáveis como as de estudar no exterior; desfrutar de um dos cursos superiores mais caros e mais cobiçados por toda a sociedade brasileira na melhor Universidade do Brasil (Engenharia – USP); presidir a União Nacional dos Estudantes com um discurso não menos intelectual e persuasivo, possa não quebrar as expectativas e não ser tão convidativo como o imbatível histórico de lutas pragmáticas, cotidianas e não apenas cientificamente, elitistamente políticas.
O filme é basicamente a narração de um sertanejo miserável que passa pela viagem feita por milhares de outros sertanejos brasileiros: o êxodo rural, com o sonho da grande São Paulo. Torna-se, como os mesmos milhares, um favelado na nada receptiva metrópole que dentre tantos problemas sociais e urbanos, propicia, aos seus mais novos moradores das favelas, noites de enchentes no próprio lar em tempos de chuva. Um protagonista simples, um qualquer que logra alfabetizar-se e depois formar-se no SENAI para trabalhar como torneiro mecânico. Agora, trata-se de um infeliz operário do enorme e monstruoso ABC paulista que, por acidente, passa a estar filiado no Sindicato e, também por acidente, tem a infelicidade de perder o próprio dedo numa máquina de trabalho. Não obstante o sofrimento, perde o emprego, e afetivamente também obtém a infeliz experiência de perder a esposa e o filho quando aquela daria a luz a este. E assim, engendra-se uma história ululante muito comum às camadas populares do Brasil. Mas com um tremendo diferencial: a prospecção política...
Parecer-se com o povo, confundir-se com ele, viver as mesmas catástrofes que o povo, advir das catatonias mais desagradáveis como a experiência de ser alvejado por reivindicar direitos inatos e puramente procedentes de uma massa trabalhadora... tudo isso torna o filme de fato sensibilizante e, no mínimo, atribui a Lula sua devida respeitabilidade. Do ponto de vista eleitoral, na verdade, num regime no qual o poder emana do próprio povo e é usado no nome do mesmo é um verdadeiro grande negócio. Misturar-se com a massa, confundir-se com ela, parece ser algo realmente único e, para os paradigmas do perfil dos dirigentes da política nacional, tem que ser mesmo invejável. Propaganda eleitoral tácita? Tolas são as lideranças de marketing de outros partidos que não tiveram a sacada mais genial de tocar as emoções e o âmago mais profundo do eleitor brasileiro.
Mas, pensando bem... por que não o fazem? Porque sofrimento a dar e vender sucedido de superação, vontade, perseverança... batalhas tão diárias e quedas de preconceitos tão estereotipados são realmente difíceis de serem encontrados. Utilizar o arquétipo de grande intelectual, professor doutor, poliglota que aufere discursos políticos na língua local dos mais diversos países! o grande baluarte da Universidade... tudo isso são verdadeiras armas que são usadas para engrandecimento da história de alguém: enaltecem, identificam, especificam e podem justificar o voto naquele muito mais hipoteticamente preparado e devidamente responsabilizado a presidir um país. Mas que não tem tão surpreendente biografia e não dá uma “historinha de cinema” capaz de relativizar toda a ordem mais “natural” das coisas. Fica claro que o Lula do PT e/ou o PT de Lula pode se gabar, se ensoberbecer de ter a mais inédita saga e o mais autêntico representante democrático: alguém que é do povo e conquistou o povo para si. Nada mais justo e pertinente ao assistir, dizer, repetir, respeitar, reconhecer e indago: por que não votar? na indicação de Lula, o verdadeiro filho do Brasil!
GLAUCO FELIPE ARAÚJO GARCIA