O humor vai chegando a um nível tão hardcore de espetáculo, que ouvir coisas do tipo “você é muito bom no que faz” já é mais que bastante pra alavancar tudo o que existe de mais esnobe em você.
Ser muito bom no que faz já não é suficiente. É pleonasmo forçadamente proposital. Você, mais do que qualquer outro, sabe que é muito bom no que faz, e isso é sempre dizer mais do mesmo, amassar o barro, alastrar o tédio. Ser muito bom no que faz e não poder expandir suas fronteiras, maximizar seus ganhos, otimizar seus espaços é como ser pessimamente indesejável no que se está propenso a fazer.
Apesar da ambição, nunca é demais ser bem recebido. No fundo, eu só queria ter grandes amigos. Pra viver ocasiões importantes. Desafiando as pessoas a me convidar sempre pros seus ambientes e ciclos de convívio, porque o meu prestígio seria muito mais do que contemplar um quadro de cenas conhecidas. Eu queria ser mais que expressionismo. Não precisava impressionar, nem causar qualquer impacto cubista ao estilo Picasso em Guernica. Fosse surreal, mas de carne, osso, afeto e carícia.
Aliás, incomodando Machado, não tenho amigos. O que rola é um emaranhado de relações muito bem direcionadas na conveniência de interesses dos mais diversos. Oscilam em barganhas que arregimentam de uma voz suave, com acordes bobos e uma conversa pseudo-culta a um sexo gostoso, maluco, faceiro e inconveniente. Foi Saramago quem esclareceu que a humanidade, cada vez mais desumana, põe em cheque seu próprio futuro.
Ando tão puto com o futuro, que minha preocupação é perder o presente reclamando do que poderia ter vindo e não se pôs pelos crassos erros do meu incômodo passado. E que interessa o tempo? Se inimigo, cada segundo mais nos compromete a consciência com remorsos, descuidos e preocupações? Que se exploda a linha do tempo e essas concepções de ontem, hoje e amanhã... Navego sensato e tripudiando a loucura da minha solidão. Sei acertadamente do colapso, em mim, poesia catártica, franca e plena amplidão.